LIBERDADE FEMININA E CORTES DE CABELO por Gabriela Oliveira
17:00
O cabelo é uma das maiores preocupações das pessoas. Quando se trata das mulheres, principalmente das mulheres crespas, a preocupação é ainda maior. Nós crescemos numa sociedade que nos impõe que cabelo crespo é bom de alisar e que cabelo bonito é cabelo longo. Quando a mulher crespa decide assumir suas raízes, muitas vezes tem que passar pelo BC (Big Chop = grande corte) e isso nem sempre é tão simples e fácil assim.
Eu cortei meu cabelo há algumas semanas e não sei contar quanta gente me disse que "eu sou louca", "que era mais bonito comprido" e outras frases que nem merecem ser compartilhadas. No meu caso, foi só vontade de doá-lo e aquele desejo incessante de mudança, afinal, como já sabemos, meu cabelo já era enrolado da raiz às pontas. Na minha transição, não precisei fazer o BC.
Hoje eu trago para vocês dois relatos de duas queridas já fotografadas para a Crespura, a Anna e a Tati <3
Para Anna Karolina, minha mozona e também estudante de História na Universidade de Taubaté (UNITAU), o ato de cortar o cabelo foi inspirado pelo BC. Ela já desejava ter o cabelo natural e então, em Abril de 2014, concretizou a ação e, um ano e meio depois, raspou a cabeça.
"Eu ouvi poucas críticas negativas (ouvi, porque nas costas sei que tiveram várias) e confesso que não me recordo delas muito bem. Lógico que das duas vezes, a que cortei curto e a que raspei, ouvi bastante que "queria ser um homem", mas abstrai a maioria desses comentários".
Anna é uma mulher negra empoderada e explica que a padronização da mulher negra é completamente diferente da de uma mulher branca, e, também, muito mais enraizada na sociedade machista e racista em que vivemos.
"Liberdade é a palavra e o sentimento. Assumir o crespo, deixá-lo natural e grande pode ser libertador no aspecto social e político, mas raspar o cabelo, deixar ele curtinho, é libertador além disso. Lógico que há uma quebra de estereótipo, mas tem toda a questão de se sentir sempre pronta, sem a necessidade de arrumar o cabelo para não sofrer julgamentos por estar desarrumado. A quebra de padrões estéticos no geral é muito significativa para mulheres brancas, enquanto que, para mulheres negras, geralmente a quebra do padrão não é uma quebra, porque durante muitos séculos os homens nos desumanizaram e fizeram com que a sociedade nos enxergasse como sujas, feias e tão masculinas quanto eles quando nos obrigavam a esconder ou cortar o cabelo. A mulher negra não tinha o direito de se arrumar como a mulher branca tinha. Então, quando cortamos o cabelo e o assumimos crespos, a gente retoma ao que já foi designado, mas vejo que hoje nós estamos fazendo isso com a consciência e a necessidade de mostrar para essa sociedade que a mulher negra, crespa de cabelo curto, não é feia, não é suja, não é porca. Ela é tão bonita e tão mulher quanto todas as outras, e isso SIM é libertador."
Para a maravilhosa e estilossísima designer gráfica Tati Vaz, o ato de raspar a cabeça foi para sua auto aceitação.
“Eu já havia passado pelo processo de transição, havia experimentado alguns cortes e cores, porém eu sentia que não era eu, que aquele corte de cabelo não combinava com a minha personalidade. Então, em 2013 foi a primeira vez que raspei. Eu lembro que me senti mais leve e quando olhei no espelho eu realmente tinha me encontrado”.
Tati conta que as críticas que recebeu de pessoas próximas foram positivas, porém ainda sente que os olhares na rua ainda são de reprovação (NÃO QUE A GENTE PRECISE, NÉ QUERIDOS, MAS POLICIEM-SE). “Um momento que marcou muito foi quando eu estava numa palestra e uma senhora de aproximadamente 70 anos se aproximou, olhou pra mim e falou que tinha adorado meu cabelo com uma sinceridade que fiquei realmente lisonjeada. Foi incrível porque ela tinha a mente mais aberta que muita gente nova que eu vejo por aí”.
Tati, assim como a maioria de nós aqui nessa Crespura, alisou o cabelo por muitos anos e sente que a representatividade é o ponto chave para que as novas crespas se sintam seguras para serem elas mesmas.
“Eu me lembro de quando era adolescente e não tinha muitas mulheres para me inspirar, então eu achava que eu precisava ter cabelo liso porque era aquela informação que chegava até mim. Alisei o cabelo praticamente a maior parte da minha vida, até que comecei a seguir as minas da gringa e isso foi me deixando mais confiante para assumir quem eu realmente era diante da sociedade. E hoje faço isso com outras pessoas, assim como muitas outras e outras garotas farão daqui pra frente. PORQUE JUNTAS SOMOS REALMENTE MAIS FORTES”.
![]() |
| A Tati foi fotografada para a edição especial da Crespura em comemoração ao dia da Consciência Negra |
Dividir essas histórias e vivências com vocês para a Gabriela que vos fala é de muito valor. Espero que absorvam algo bom e inspirem-se. A Crespura, a careca, a nossa voz, tem que ser libertada e você não está sozinha.
Beijos de luz,
Gabi.







0 comentários