AQUELA RUA - por Juliana Yume

19:03


Andar, para mim, é quase que uma terapia. Quando estou voltando para casa depois da aula, vou caminhando pela avenida, observando as pessoas ao meu redor, tentando descobrir o que se passa pela cabeça delas nesse momento, e se elas também acham a vida tão confusa. Todos os dias, quando estou andando por essa avenida, eu observo uma rua que corta o meu caminho. Eu não sei para onde ela dá, é a minha rua misteriosa. E toda vez que passo reto por ela, eu sinto um desejo enorme de entrar. Eu não sei se aquela rua daria em um parque ou em um cemitério. Eu não sei se ela é sem saída ou se alonga até outro bairro. Eu não sei se lá há mais casas de famílias ou comércios. Mas eu queria descobrir.
Todo dia, quando faço a caminhada de volta para casa, eu só queria virar naquela rua. E andar sem rumo por ela, sozinha. Queria entrar em um barzinho ou restaurante qualquer, pedir qualquer coisa do cardápio só para poder ocupar um lugar, e conversar com pessoas que nunca vi. Conversar com desconhecidos para me conhecer melhor. Saber quem sou eu quando não há mais ninguém.
Eu queria conversar com pessoas que não soubessem quem eu sou. Que não soubessem que as vezes fico tão nervosa que tiro minha cutícula com o dente até machucar. Que não soubesse que durmo de luz acesa pois me sinto vulnerável demais fechando os olhos no escuro. Que não soubesse que as vezes explodo por coisas tão pequenas pois estava cheia de omitir minha irritação por tantas outras coisas. Que as vezes eu perco a vontade de fazer até mesmo as coisas que gosto, e só quero ficar deitada ouvindo minhas músicas tristes. Que frequentemente ser sociável me cansa. E que as vezes eu passo muito tempo observando e pensando sobre como as pessoas se relacionam e fazem amizades com tanta facilidade quando para mim isso parece tão difícil. Que só me achassem simpática e leve. 
Eu queria andar sozinha por ruas desconhecidas e não avisar ninguém. E não levar meu celular. Nem a baixa autoestima. Nem a timidez, a insegurança, o medo. Eu queria deixar tudo para trás e sair andando por aí com confiança, sabendo que o mundo é meu e que a vida é para ser vivida.Mas eu nunca virei naquela rua.

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